quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

:Beleza Americana

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É com grande facilidade e legitimidade que podemos considerá-lo o último grande clássico do século vinte, uma obra-prima marcante merecedora de todos os prémios recebidos. “American Beauty” consegue, contudo, transcender o reconhecimento atribuído pelo público em geral, expressando quase na perfeição, com a sordidez, falsidade e imbecilidade das acções humanas que nos fazem parecer tão pequenos, a beleza do mundo.
Sam Mendes, que recentemente nos trouxe um “Revolutionary Road” com reflexos evidentes deste trabalho (quer no estilo ou na história), ganha a verdadeira qualidade de realizador, com uma louvável direcção artística: planos memoráveis que se cursam com uma harmonia e calma incríveis, um jogo intenso de cores e uma diversidade de elementos simbólicos que só poderiam resultar de um argumento de génio (assinado por Alan Ball), que toca em temas tão simples quanto profundos. Aliás, podemos considerar que tudo o que está escrito é o ponto mais elevado da película. As diferentes narrativas, com todas as suas particularidades, se interligam numa última hora de clímax exímia, que Thomas Newman fez questão de, mais uma vez, não passar por despercebida, levando aos nossos ouvidos, como o fez já com “Os Condenados de Shawshank”, “Anjos na América”, “À Procura de Nemo” e “Revolutionary Road”, uma admirável banda-sonora. Nada, claro, está nas cenas por um simples acaso. Só a despretensiosa (mas constante) presença das rosas e pétalas vermelhas personificam a pura inocência que o conjunto maravilhoso de actores não arruinou.
De longe, Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch estão de tirar a respiração, acrescentando ao grupo a talento-revelação de Angela Hayes. Contudo, é a personagem secundária de Wes Bentley, como o adolescente Ricky Fitts, que parece ter saído de “Aparição”, de Vergílio Ferreira, e que se me apresenta, apesar de todos os defeitos que o tornam ainda mais humano, como a mais sensata e sábia personagem do filme, e que fez com que um ordinário saco de plástico a dançar com o vento ganhasse vida e perfeição.
O filme viaja, portanto, no limiar onde patéticos devaneios, receios e ilusões de típicos ocidentais se chocam (há quem queira ser bem sucedido profissionalmente, quem queira impressionar alguém, quem viva em negação consigo mesmo, e por aí adiante), acabando as personagens por se comportarem, tal como em “Little Children” também nos mostra, como autênticas crianças desprovidas de bom senso. E, já que pegamos no exemplo, tornam-se evidentes as influências causadas por “American Beauty”; o sentido profano como forma de explorar a psicologia dos seres humanos no cinema é visível em diversas obras desta década presente.
Pouco há mais que dizer quando tudo me parece tão bem feito. Desculpa andrajosa para quem não tem vontade para escrever? Parece-me a mim, para quem viu o filme, que não, e que entenderão o que acabo de dizer. Se bem repararmos, numa cena em que Lester está a trabalhar, podemos ver escrito na secretária “look closer”, e o que e o que nos compete fazer durante as duas poderosas horas de filme e após, para sempre: olhar mais aproximadamente, com olhos de ver e analisar, de forma a podermos experimentar verdadeiramente toda a beleza e o milagre de viver.
[publicado originalmente a 21 de Fevereiro de 2009]
9,5/10

:Grandes Momentos #5



A liberdade e a vida, vista pela janela do infinito e da impossibilidade. O precioso Mar Adentro (2004) vale por isto e por muito mais. 

Dezembro & Sam Mendes

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Após um mês dedicado a Martin Scorsese, volto a reunir forças com os blogues CINEROAD, seeSAWseen e Split Screen para uma iniciativa centrada no multifacetado, socialmente interventivo e artisticamente notável Sam Mendes, realizador de Beleza Americana, Estrada para Perdição, Máquina Zero, Revolutionary Road e Away we Go. Comemoramos, assim, a época de Natal com artigos sobre o sensível cineasta e com a ajuda inédita do nosso convidado - o brasileiro Pedro Tavares, do blog Cinema O Rama.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

:Tudo Bons Rapazes



Pouquíssimos são os filmes que conseguimos dizer, com toda a segurança, que nos agarram desde a primeira instância até à última e mais memorável, pela profunda qualidade que lhes são intrínsecos. Goodfellas apresentou-se, qual delirante dinamite, como um exemplo perfeito e explosivo do que referi. Não há palavras que melhor descrevam um argumento tão envolvente e tão bem estruturado com uma trama deliciosamente relatada — o nome de Nicholas Pileggi é exaltado entre nós, desta forma, com toda a justiça, antes de qualquer outro. Por sua vez, um Scorsese, determinado e consciente do seu valor e talento, filma, em constantes e grandiosos long takes, de forma perfeita, a essência da experiência de vida do nosso carismático protagonista, tão bem encarnado por Ray Liotta. A juntar ao aparato, Joe Pesci e Robert DeNiro juntam forças para que os bons companheiros brilhem com toda a intensidade merecida. Enfim, uma lição de autêntico cinema, um clássico luzente, que bem termina com a iniciativa Novembro & Martin Scorsese, levada a cabo, também, pelos blogues CINEROAD, e Split Screen e o convidado Cinema is my Life.
9/10

domingo, 29 de Novembro de 2009

:Moon - O Outro Lado da Lua



Absolutamente surpreendente. Uma gema da ficção científica e do cinema independente que não contava ser tão poderoso. O primeiro e ambiciosíssimo filme de Duncan Jones deixa suspensa, mais ou menos, e mais mais do que menos, uma sensação rara, daqueles que fiquei com pouquíssimos filmes. Não excluindo dos pontos fortes do argumento temáticas que são abordadas subtilmente como as fronteiras da ciência e da tecnologia no futuro, o que verdadeiramente campeia neste pequeno grande filme é a forma deliciosa e audaciosa como, tragicamente, somos confrontados com o vazio e a nulidade da existência do nosso protagonista, interpretado por um magnífico, versátil e crível Sam Rockwell. E a relação entre GERTY e Sam, apesar de toda a plasticidade que poderíamos, num julgamento apressado e injusto, exaltar, torna “Moon” uma das mais humanas fitas do ano. Influenciado de forma clara pelo “2001” kubrickiano (e, até mesmo, “The Island”, de Michael Bay?), aliado a uma narrativa inteligente e quase provocatória, a ambiência que nos proporciona Clint Manssel, eternizado pelas composições musicais de “Requiem for a Dream” e “The Fountain”, traduz-se numa inesquecível viagem à lua em noventa minutos, pautada por uma belíssima fotografia e direcção artística. Em suma: a ver e a rever, com urgência, para todos aqueles que gostam de cinema em pleno.
9/10

:Chinese



"Chinese" ou como tranformar uma música em algo tão idílico.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

:Gangs de Nova Iorque



Tínhamos tudo para que “Gangs of New York” fosse um filme, no mínimo, grandioso. Nomeado para dez Óscares sem sequer conseguir conquistar um, o caso da Academia evidencia, desta vez bem, como o filme, que reúne elementos irrepreensíveis como é o caso da excelência interpretativa do elenco (a qual não inclui Cameron Diaz), uma banda sonora heterogénea mas magnífica (e que ambienta uma das melhores cenas finais de sempre) e uma esplêndida fotografia, não conseguiu ir para além da ambição. O esforço e investimento tidos na representação das cenas de combate e de confronto entre as mais diversas ideologias acaba por não se manifestar na fraca linha narrativa com que se vai movendo, vagarosamente, o filme. Tendo como base uma história pouquíssimo sólida e um desenrolar de eventos igualmente frágeis em termos de profundidade e autenticidade, a realização conseguinte acaba por transparecer todas essas falhas que enunciamos. Estamos, portanto, perante uma obra apenas interessante que, felizmente, nos deixou com mais uma interpretação inesquecível de Daniel Day-Lewis.
7,5/10

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

:Perguntas #2


Quem não gostava de realizar um biopic de Variações?

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

:O Aviador



Foi em 2004, altura em que O Aviador arrecadou cinco Óscares, onde o nosso Scorsese, saiu, mais uma vez e na má tradição da Academia, de mãos a abanar. E com toda a legitimidade podemos exaltar a ocorrida injustiça porque estamos perante uma obra simples e unicamente surpreendente. Excelente e interessantíssimo do ponto de vista histórico e cultural, o filme é um total triunfo técnico (a cinematografia e a direcção artística são muito bons) e performativo — Hepburn está deliciosamente viva no corpo de Blanchett, e poucos conseguiriam entrar na complexa mente de Hughes como DiCaprio conseguiu entrar. Aliado ao cineasta, os dois exploram, nesta biografia, e com grande impecabilidade, o pantanoso terreno da fobia, da obsessão e do desejo da perfeição. Pecando pela ausência de algum ritmo no decorrer do filme, dada a sua duração que consegue ser algo fastidiosa e exagerada, este regista o que tudo deveríamos saber e compreender da extraordinária vida de um dos mais ricos homens do mundo.
8/10

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

:Aleflavismo #5



A diferença entre o real aparentemente lógico e o irreal aparentemente ilógico

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